sexta-feira, 6 de abril de 2012

Resposta positiva ao tópico I, problema 1, e Argumentos


Pode uma premissa fazer parte ora de um silogismo dialético ora de um silogismo demonstrativo?

Existem algumas razões para pensarmos que a resposta é positiva, ou seja, uma premissa pode sim fazer parte de um silogismo dialético e de um silogismo demonstrativo em situações diferentes (supondo-se que sábios ou a maioria das pessoas tenham dito algo verdadeiro e primeiro).

Antes de dar os argumentos, é preciso caracterizar melhor essa resposta. Ela consiste em dizer que um mesmo “conteúdo proposicional” está livre para compor ora um silogismo dialético, ora um silogismo científico. Por “conteúdo proposicional” estou entendendo o sentido e a referência de uma frase.

Digamos que nós tenhamos uma frase asseverativa, na estrutura “S é P”. Por exemplo, “homem é um animal bípede”. Tal frase tem um objeto referido e um significado facilmente inteligível. De posse dela, nós podemos então pô-la num começo de discurso dialético ou  demonstrativo. Ao fazer isso, ela se torna uma premissa dialética ou uma premissa demonstrativa, desde que, é claro, satisfaça as condições mínimas de reputabilidade e de veracidade-primordialidade.

Esquematicamente:
Premissa: "S é P"
Premissa dialética: “S é P” é aceita pela maioria ou por sábios
Premissa demonstrativa: “S é P” é verdadeira e primeira

Argumentos:

1. As definições de premissa dialética e de premissa demonstrativa especificam condições gerais, por assim dizer, formais, e não determinam o "conteúdo" das premissas.

Para que a frase X seja usada num silogismo dialético, basta que ou todos, ou a maioria ou sábios falem a frase X, isto é, que X seja reputada.

Para que frase X seja usada num silogismo demonstraivo, basta que ela seja verdadeira e primordial (ou derivada de primordiais). (Não é claro, por enquanto, o que significa “primordiais”, mas a julgar pelos Tópicos I 1, 100 b 18-20, significa que nos dá certeza por si própria.)

As condições para classificar uma frase ou como demonstrativa ou como dialética não determinam exatamente os objetos referidos ou os sentidos das frases.

Portanto, é possível que todos, a maioria  ou sábios falem a frase F e que a frase F seja verdadeira e primordial.

2. Nessa mesma linha, o que diferencia uma frase reputada de uma frase verdadeira-primeira é apenas a decisão de quem faz o silogismo. Assim, pode-se decidir fazer o mesmo silogismo por razões diferentes.

Um comentador notou que a diferença entre premissa dialética e científica depende de quem faz o silogismo.

Alexandre de Afrodísia, Comentários aos Tópicos, CAG II 2; 19, 22-7:
O reputado difere do verdadeiro não por ser falso (pois alguns reputados são também verdadeiros) mas pela decisão. Pois, por um lado, a decisão pelo verdadeiro provém do assunto, acerca do que é; pois quando isto concorda com aquilo, então é verdadeiro. Por outro, a decisão pelo reputado não provem do assunto, mas dos ouvintes e dos julgamentos que eles têm sobre o assunto.

"Decisão" traduz "epikrisis". Trata-se de uma decisão, de uma determinação que nós damos a um assunto, por uma ou outra razão.

Portanto, se é apenas pela decisão que nós satisfazemos as condições de uma premissa dialética ou de uma premissa demonstrativa, uma pessoa pode decidir fazer um silogismo por conta das opiniões dos ouvintes e outra pessoa pode decidir fazer o mesmo silogismo por conta da verdade.

3. Absurdo da contraditória

Ora, se não é possível que uma frase seja endoxa e verdadeira-primeira, então temos que aceitar a contraditória. A contraditória é: é necessário que nenhuma frase seja endoxa e verdadeira-primeira. Isso implica que a maioria e os sábios nunca poderão falar algo que seja verdadeiro e primeiro. Mas que mundo mais estranho em que as pessoas estão condenadas a falar falsidades ou sem certeza! Portanto, temos que admitir que é pelo menos possível que a maioria ou os sábios, de vez em quando, falem frases que são verdadeiras e primeiras.

11 comentários:

Carneades disse...

Sempre é interessante observar se uma tese exânime poderia voltar à vida. Mas, a contradição é uma doença incurável. Nem a qualificação da tese, nem os argumentos de nosso amigo chegam perto de tornar aceitável a tese que afirma a possibilidade que uma mesma premissa constitua parte ora de um silogismo dialético, ora de um silogismo demonstrativo. Desse modo, só por mor do debate, ofereço uma refutação da resposta positiva de nosso amigo.

Sobre a qualificação da tese:

(1) Escreve nosso amigo: “uma premissa pode sim fazer parte de um silogismo dialético e de um silogismo demonstrativo em situações diferentes (supondo-se que sábios ou a maioria das pessoas tenham dito algo verdadeiro e primeiro).” Note-se que do mesmo modo que o fato de que os ignorantes tenham dito algo verdadeiro e primeiro não faz falso o que eles disseram, o fato de que os sábios o a maioria das pessoas tenham dito algo verdadeiro ou primeiro não torna uma proposição demonstrativa em uma endoxa.

(2) Em primeiro lugar, é claro que o escopo de nosso debate encontra-se na filosofia de Aristóteles. Portanto, o uso distinções anacrônicas é inadequado e não pode qualificar a tese que estamos discutindo. Em segundo lugar, a postura de Aristóteles (e.g. em De Int. 16ª 1 – 17ª 8) sobre o significado é oposta as distinções de Frege (ainda que para Frege e Russell, assim como para o resto de filósofos analíticos do século XX, ´sentido´, ‘referencia´ e ´conteúdo proposicional´ são conceitos muito controversos). Portanto, nosso amigo teria que 1. clarear como ele entende ´sentido´, ‘referencia´ e ´conteúdo proposicional´ e depois 2. argumentar a legitimidade filosófica dessa abordagem para a filosofia de Aristóteles. Ainda assim, isso está fora de nosso escopo. Finalmente, em terceiro lugar, nosso amigo escreve “Por “conteúdo proposicional” estou entendendo o sentido e a referência de uma frase.”. A anterior asserção não faz o menor sentido sob nenhuma interpretação dos termos nem Frege, nem Russell, etc. Corresponde ao argumentador ter claros os usos dos termos que ele emprega antes de emprega-lhos.

Carneades disse...

Sobre os argumentos:

(3) Os leitores podem confirmar que o argumento 1 contradiz as definições de silogismo do próprio Aristóteles. (Cf. a entrada do Tópico I neste blog). Isso é mais que suficiente para rejeitar este argumento.

(4) Em primeiro lugar, o argumento 2 refere-se a premissas verdadeiras, mas as premissas demonstrativas não são somente verdadeiras. Portanto, se eu fizera um silogismo com premissas verdadeiras, não teria feito uma demonstração (Cf. Minha entrada neste blog). Poderia parar aqui. No entanto, em segundo lugar, "epikrisis" é uma “determinação” sim (Cf. também o Liddell-Scott), mas o sentido de “decisão” que nosso amigo afirma é inaceitável. Conseqüentemente, aqui temos um erro de leitura. O texto de Alexandre é claro: “por um lado, a [determinação] pelo verdadeiro provém do assunto, acerca do que é” e “a [determinação] pelo reputado não provem do assunto, mas dos ouvintes e dos julgamentos que eles têm sobre o assunto”. A distinção é clara: o verdadeiro é determinado ad rem, o reputado é determinado ad hominem. Portanto, afirmar “Trata-se de uma decisão, de uma determinação que nós damos a um assunto, por uma ou outra razão” é contraditório com o paragrafo de Alexandre é, num sentido geral, é uma tese absurda e inaceiável no que cabe a filosofia de Aristóteles.

(5) Em primeiro lugar, o ponto 3 está formulado de um modo errado (Cf. o texto). Em segundo lugar, é claro que o fato de que os sábios o a maioria das pessoas tenham dito algo verdadeiro ou primeiro não torna uma proposição demonstrativa em uma endoxa. Finalmente, a dialética usa silogismos dialéticos i.e. silogismos que usam premissas dialéticas. Não é oficio da dialética fazer silogismos demonstrativos. Isso é claro se lemos com rigorosidade a Aristóteles.

O problema é que se não aceitamos as teses não controversas do próprio Aristóteles o debate vira estéril. Temos que aceitar que a diferença entre os silogismos radica na natureza das premissas. Além disso, as condições de enunciação do silogismo são irrelevantes na hora de fazer uma demonstração. Ciência é capacidade de demonstrar; ciência é ciência do necessário. (Cf. a entrada de Ciência e Dialética neste blog)

Obrigado.

Nota: Estou aprendendo portugês. Portanto, ofereço desculpas aos leitores se cometi alguns erros.

Ensimesmado disse...

A argumentação é um exercício sempre constante na filosofia. Às vezes, uma pessoa assume uma hipótese apenas para ver em que ela pode chegar. Para que essa busca não seja em vão, devemos prestar atenção na caminhada para tentar tirar algum proveito dela. Por isso, mesmo que a hipótese sustentada pelo colega nos pareça claramente falsa, é importante pelo menos manter um debate pois se nos furtamos a qualquer discussão corremos o risco de não tirar nenhum proveito. Então, "por mor do argumento" sempre!

Vamos replicar por partes.

1) Critica-se dizendo que "o fato de que os sábios o a maioria das pessoas tenham dito algo verdadeiro ou primeiro não torna uma proposição demonstrativa em uma endoxa." Mas o argumento apresentado não foi que uma proposição demonstrativa vai se tornar uma endoxa. De fato, enquanto demonstrativa, não pode ser endoxa. O argumento é, se X é verdadeiro e primeiro e se X é reputado, então X pode fazer parte de um silogismo demonstrativo como pode fazer parte de um silogismo dialético.

Porém, sei que essa crítica radica em outro ponto, o "se X é A, X não pode ser não-A", que foi apresentado na "Opinião sobre o Tópico I, problema 1".

2) De fato, esse é um erro que eu teimo cometer, por isso, aconselho fortemente a "nunca usar conceitos e expressões de um filósofo para explicar outro". Por isso, aceito sua refutação.

Em todo caso, por "conteúdo proposicional" eu queria dizer "S é P" de tal modo que toda vez que encontrarmos "S", será o mesmo "S" de "S é P" e toda vez que encontrarmos "P" será o mesmo "P" de "S é P". Tanto "S" quanto "P" se referem a algo no mundo.

Ensimesmado disse...

3) O Argumento 1 da postagem não contradiz as definições de Aristóteles. Seria uma contradição se fosse dito que "uma premissa dialética é uma premissa demonstrativa". Porém, o que é dito é que "X satisfaz as condições para ser uma premissa dialética e X satisfaz as condições para ser uma premissa científica. Logo, X pode ser ora uma premissa dialética, ora uma premissa científica".
Porém, mais uma vez, acredito que a raiz da crítica está no principal argumento em "Opinião sobre o Tópico I, problema 1", que vou chamar por enquanto de "argumento da identidade".

4) Primeiro, embora Alexandre esteja falando apenas de verdade e reputabilidade, a intenção dele é mostrar a diferença entre as condições para ser endoxa e para ser primeira-verdadeira.

Decidi traduzir epikrisis por "decisão". O inglês prefere "adjudication" que é "hear and settle a (case) by judicial procedure" ou "to study and settle (a dispute or conflict)" (ver em thefreedictionary.com). Foi buscando esse sentido que traduzi por "decisão".
Embora o Liddel-Scott dê como primeira tradução "determinação", essa palavra deve ser entendida no sentido de "discriminação" (pelo menos, é num sentido semelhante a esse que a palavra ocorre nos exemplos do Liddel-Scott, em Strabo 1.1.2 e em Diógenes Laércio IX 92.)

Acredito que o colega objetor tenha entendido nesse sentido porque ele diz que "o verdadeiro é determinado ad rem, o reputado é determinado ad hominem." Porém, é preciso observar no parágrafo de Alexandre o que está determinando a descriminação: se você faz o silogismo tendo em vista a verdade e ela ocorre, então sua frase é verdadeira(e primeira, arrisco dizer). Porém, se você faz o silogismo tendo em vista a opinião corrente dos ouvintes, então sua frase é reputada.

Quanto ao fato de ser inaceitável de acordo com a filosofia de Aristóteles, isso é outro ponto. Vale a pena abrir um tópico só sobre isso.

5) quanto a "a proposição demonstrativa (se tornar) em uma endoxa" mesma resposta que ao 1). Quanto a irrelevância das condições de enunciação, proponho abrir um tópico apenas sobre isso. Vou elaborá-lo, mas como posso demorar fazê-lo, sinta-se à vontade para abrir tal tópico. A questão seria algo como "basta que as premissas sejam necessárias para que o silogismo seja científico?"

Por fim, reitero que o problema 1 do tópico I não afronta os conceitos claros de Aristóteles. Tal problema pretende passar ao largo das definições aristotélicas, aproveitar-se, por assim dizer, das "brechas" e observar algumas questões que podem ser interessantes para o debate "ciência e dialética em Aristóteles".

Ensimesmado disse...

Antes que haja confusão, não se está defendendo aqui que um silogismo dialética pode chegar a uma conclusão científica. Mesmo essa ideia é defensável:

"A primeira consequência da tese que me proponho defender nesta ocasião é que a 'dialeticidade' da historiografia filosófica de Aristóteles não exclui a possibilidade de que se chegue por meio dela a resultados que o filósofo teria considerado 'científicos', ou seja, dotados de verdade e necessidade. Se isto é verdadeiro, o caso da historiografia filosófica pode servir para demolir um preconceito ainda muito comum entre os estudiosos do Estagirita em particular e da história da lógica em geral: o de que entre dialética e ciência (esta última entendida não no sentido das ciências particulares, mas no de um saber verdadeiro e necessário) se verificaria para Aristóteles uma insanável oposição, já que a primeira seria capaz de chegar a conclusões apenas 'prováveis' enquanto a segunda produziria conclusões plenamente verdadeiras." (BERTI, E. Sobre o caráter "dialético" da historiografia filosófica de Aristóteles. In: ______. Novos Estudos Aristotélicos I. Tradução de Élcio de G. V. Filho. São Paulo: Loyola, 2010. p. 206s.)

"O caráter 'dialético' da historiografia filosófica de Aristóteles, hoje [1986] suficientemente assentado e quase unanimemente aceito, não implica, todavia, que as conclusões a que chegam as discussões do filósofo com os filósofos precedentes tenham o caráter de simples 'probabilidade' que se costuma atribuir à dialética aristotélica. Estas conclusões, como veremos a seguir, têm para ele um caráter de absoluta 'cientificidade' e contribuem, portanto, para resgatar a própria dialética aristotélica de uma suposta falta de cientificidade, ou seja, de verdade." (BERTI, ibidem, p. 215.)

Sem entrar no mérito de se Berti está interpretando corretamente o Filósofo, vê-se apenas que esta interpretação é defensável: não é um absurdo ou uma contradição direta em relação ao texto aristotélico.

Contudo, mais uma vez chamo atenção de que a discussão aqui não é essa, a questão não é se é possível que silogismos de um tipo gerem conclusão de outro tipo de silogismo.

Não se trata de premissas enquanto dialéticas, mas simplesmente de proposições, independente do silogismo em que ela fizer parte.

Ensimesmado disse...

Em verdade, o mesmo comentador, em outro artigo seu (original em WIANS, S. Aristotle's philosophical development. 1996), defende exatamente a concepção que é motivo de debate neste nosso tópico. Primeiro, ele cita a seguinte passagem dos Tópicos (ver a tradução original em The Complete Works of Aristotle, v. 1, editado por J. Barnes):


"no que toca à escolha do terreno em que ela irá se dar, a investigação (skepsis) é a mesma para o filósofo e o dialético; mas a maneira de organizar seu argumento e conceber suas questões pertence apenas ao dialético; pois em todo problema deste gênero está envolvida uma referência a outra pessoa. Não é bem assim com o filósofo e com o homem que investiga por si mesmo: as premissas do seu raciocínio, embora verdadeiras e familiares, podem ser recusadas por quem responde porque estão próximas demais da afirmação originária, de modo que este [isto é, quem responde] pode prever o que seguirá se as conceder; mas o filósofo não se preocupa com isso. Com efeito, ele pode até ficar ansioso para obter axiomas tão familiares e tão próximos quanto possível à questão em exame; pois estas são as bases sobre as quais a dedução científica é construída (VIII 1, 155 b 7-16) (BERTI, E. A concepção aristotélica de dialética também se desenvolve?. In: ______. Novos Estudos Aristotélicos I. Tradução de Élcio de G. V. Filho. São Paulo: Loyola, 2010. p.282s)


E, em seguida, elabora esta interpretação:


"A única diferença entre o filósofo e o dialético que emerge dessa passagem é que o primeiro é um homem que investiga por si mesmo, e que portanto busca obter premissas verdadeiras e familiares (axiomas), com o fim de, a partir delas, deduzir a verdade, ao passo que o dialético sempre faz referência a um interlocutor, buscando, assim, obter o acordo do outro a respeito das premissas, com o fim de refutá-lo mais facilmente. A investigação das premissas é a mesma, e AS PRÓPRIAS PREMISSAS PODEM SER AS MESMAS, ISTO É, ELAS PODEM TER O MESMO CONTEÚDO: mas no caso do dialético, elas devem ser aceitas por um interlocutor, enquanto no caso do filósofo precisam apenas ser verdadeiras. O CONTEÚDO DOS AXIOMAS E DOS ENDOXA PODE SER O MESMO: a diferença não está no conteúdo, supostamente verdadeiro no primeiro caso e não-verdadeiro no segundo; ela está no acordo de quem responde, que é supérfluo no primeiro caso e necessário no segundo." (BERTI, ibidem, p. 283. Desculpem ter escrito algumas frases em letras garrafais, mas foi a forma que encontrei para chamar atenção o que é importante para essa discussão.)


Antes de continuar, é preciso notar que nesse artigo Berti investiga se a concepção de dialética de Aristóteles se desenvolve ao longo das obras e sua conclusão será negativa, ou seja, "Aristóteles sempre professou a mesma concepção de dialética, das suas primeiras às últimas obras" (BERTI, ibidem, p. 309). Portanto, a passagem dos Tópicos que dá ensejo às palavras de Berti não só é consistente com o resto dos Tópicos (inclusive com o primeiro capítulo do livro I) mas também com o primeiríssimo capítulo dos Analíticos Anteriores.

Ora, vê-se que Berti defende exatamente a concepção que temos debatido aqui; inclusive, há presença de mesmos termos, como "conteúdo" (ver caput deste post), com os mesmos significados.

Ensimesmado disse...

Retornando ao início, tentemos pôr em outras palavras a concepção que está em debate aqui.

O que Aristóteles fala no começo de Analíticos Anteriores e Tópicos é o seguinte:

Se p é premissa dialética, então endoxa;

Se p é premissa demonstrativa, então verdadeira e primeira;


Mas não o contrário:

Se p é endoxa, então premissa dialética; nem

Se p é verdadeira e primeira, então premissa demonstrativa.

Estamos recusando essas duas últimas implicações. Ou seja, Aristóteles não faz uma bicondicionalidade aqui: ser endoxa e ser verdadeira-primeira são apenas condições necessárias para que algo seja premissa dialética ou demonstrativa, respectivamente. Porém, ser isso não é suficiente.

Assim, 'premissa dialética' e 'premissa demonstrativa' são contraditórios, quer dizer, algo não pode ser nas mesmas condições premissa demonstrativa e dialética, segundo uma leitura natural de Aristóteles.

Mas isso, desde já, não deve impedir que o mesmo objeto x receba características contraditórias; por exemplo:

x é branco, logo possui uma superfície

x é preto, logo possui uma superfície

Ora, a princípio, não pode ser o mesmo objeto que é significado por x, pois branco e preto são características opostas e, portanto, contraditórias. Porém, um mesmo x pode ser branco e preto em condições diferentes, ou melhor, em tempos diferentes. Da mesma forma, se p é dialético, o é um silogismo diferente do silogismo em que o mesmo p é demonstrativo.

Por outro lado, algo pode endoxa e verdadeira-primeira, pois esses conceitos não implicam contradição, afinal, uma mesma proposição pode ser princípio de uma ciência e, ao mesmo tempo, ser sustentada pela maioria das pessoas ou dos sábios. O ponto é que, a mesma proposição, apesar de ter as duas características, ora pode tomada como endoxa, ora como verdadeira-primeira.

Desse modo, não só esclarecemos melhor o que está em debate, como também julgamos refutar o argumento que usa o princípio da identidade no caput do post 'Opinião sobre o problema I, tópico 1'.

Ensimesmado disse...

Essa interpretação esbarra em duas dificuldades.

1) Isso implica que verdadeiro-primeiro e endoxa não são definições de premissa demonstrativa e dialética, respectivamente. Pois se fosse definições, as formulações seriam bicondicionais: se verdadeira e primeira, então demonstrativa e se demonstrativa, então verdadeira e primeira (mutatis mutandis, o mesmo se dá com as premissas dialéticas).

2) o próprio texto de Aristóteles (AAn I 1, 24 a 30; Top. I 1, 100 a 27) elabora a apresentação assim: se verdadeira e primeira, então premissa demonstrativa.

Ensimesmado disse...

Mantendo-nos, porém, nessa discussão, imagino que a primeira questão que vem à mente é:

como é possível que proposições meramente reputadas, isto é, sem um valor de verdade definido e fixo, podem levar a uma conclusão científica? Como pode um dialético chegar a resultados científicos? (ver caput do post Opinião sobre o Problema 1 do Tópico I, penúltimo parágrafo)

Ora, essa discussão também foi empreendida por Berti (O uso "científico" da dialética de Aristóteles), ao debater um artigo de Bolton intitulado 'The Epistemological Basis of Aristotelian Dialectic. (In: DEVEREUX, D.; PELLEGRIN, P. (Eds.). Biologia, logique et métaphysique chez Aristote. Paris: 1990. p. 185-236)

De modo que, também o argumento lá usado de que "O estatuto epistemológico de uma premissa demonstrativa... não é o mesmo estatuto epistemológico de uma premissa dialética" (post cit.) não está livre de controvérsias. Por isso, deve-se abrir um tópico acerca disso também.

Ensimesmado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ensimesmado disse...

A essa altura, me sinto obrigado a justificar por que tenho chamado à discussão comentadores. Se tratando de um honesto debate de ideias, obviamente não é para resolver a questão ou dar mais peso a uma opção interpretativa em detrimento à oposta.
Meu único único objetivo ao fazê-lo é mostrar que há muito o que ser discutido e que não podemos fechar a questão. Se um célebre comentador se dignou a discutir ou até a defender esta ou aquela interpretação, então vale a pena, já que também estamos inseridos no trabalho de comentar, ao menos levá-la em consideração.
Por isso, repito, nos deparar com uma interpretação - que nos parece - inaceitável ou uma contradição não é motivo para tratá-la como algo dispensável. Dela se podem auferir boas ideias ou, pelo menos, fortalecer nosso entendimento sobre o filósofo.