segunda-feira, 30 de abril de 2012

Silogística Aristotélica. Problema 1

Os alunos de filosofia e de outras áreas, talvez pelo ensino que recebem, pensam que a lógica formal é um conjunto de regras no qual mal se tem espaço para o debate. Porém, a lógica aristotélica é um bom exemplo de que podemos encontrar problemas e debater questões interessantes. A lógica de Aristóteles é complexa e sofisticada, mas, como qualquer área de filosofia, ela não está imune a discussões.

Abaixo segue o problema: é possível que uma conclusão seja necessária se uma das premissas for apenas categórica?

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Aristóteles diz que, no início do capítulo 9 do primeiro livro dos Analíticos Anteriores (30 a 15-20):
Acontece às vezes que a dedução é necessária, quando somente uma das premissas é necessária (não qualquer premissa, mas a relacionada com o termo maior), p.ex., se tomarmos que A se atribui ou não se atribui a B por necessidade e B se atribui a C sem mais. Pois, se assim forem tomadas as premissas, A se atribui ou não se atribui a C por necessidade.
Estou chamando de "categóricas" as frases que não são nem contingentes nem necessárias. Ora, segundo Aristóteles, sendo a premissa maior necessária e a premissa menor apenas categórica, é possível que a conclusão seja necessária. Se a premissa maior, a necessária, for universal (seja negativa ou positiva) e premissa menor, a categórica, for afirmativa (seja universal ou particular), a conclusão será necessária. Segundo essa regra, um argumento como o seguinte

A=animal
B=homem
C=pensante

Todo homem é animal por necessidade
Todo pensante é homem

Geraria a conclusão: "todo pensante é animal por necessidade".

Qual é o problema? As frases categóricas podem ser ora verdadeiras ora falsas, ao contrário das necessárias, que são sempre verdadeiras. Se a premissa menor se tornar falsa, então, a conclusão pode incorrer em falsidade. Usando o exemplo acima, se surgisse algo que pense, digamos, um computador, então haveria pensantes que não seriam animais; a conclusão, até então necessária, deixaria de ser verdadeira. Uma frase necessária deixaria de ser necessária! Ora, isso é um absurdo! 

Alguém errou aqui: ou Aristóteles mesmo ou nós, que o interpretamos mal (não só nós, mas também Teofrasto e Eudemo, discípulos diretos de Aristóteles, que criticaram o mestre nesse ponto).

A questão é: como é possível que uma conclusão necessária aconteça sendo que uma das premissas é apenas categórica?






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