quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ciência y Dialética: Tópico I, Problema 1

Problema 1: Pode uma mesma premissa fazer parte, ora de um silogismo dialético, ora de um silogismo demonstrativo?

2 comentários:

Ensimesmado disse...

Antes de prosseguir, vejamos um pouco mais detalhadamente o que significa silogismo dialético e demonstrativo para Aristóteles.

Tanto em Tópicos I 1, quanto nos Analíticos Anteriores I 1, Aristóteles nos apresenta que tipos de silogismos existem e quais as diferenças entre eles. Há certa diafonia entre as duas obras em alguns pontos, mas não podemos dizer que elas se contradizem. Em todo caso, os dois tipos de silogismos mais importantes, que serão estudados profundamente nos Tópicos e nos dois Analíticos, o dialético e o demonstrativo, são caracterizados quase do mesmo modo.

Em Tópicos I 1 (100 a 25 – b 23), Aristóteles fala mais ou menos assim:

“Há demonstração quando o silogismo parte de [premissas] verdadeiras e primeiras (ou daquelas cujo conhecimento se assume por causa de [premissas] primeiras e verdadeiras). Mas o silogismo dialético é o raciocinado a partir de [premissas] reputadas [endoxa]. São verdadeiras e primeiras aquelas que são dignas de fé por si mesmas e não por coisas alheias, pois não é necessário, nos princípios científicos, investigar o porquê, mas cada um dos princípios é uma fé por si mesmas. Reputadas [endoxa] são as que parecem [boas] a todas as pessoas, à maioria ou aos sábios e, entre os sábios, a todos, à maioria ou aos mais conhecidos e reputados.”

Embora Aristóteles não use a exata palavra “premissa”, precisamos supô-la aqui porque ele usa uma expressão sua que comumente se refere a premissas. É importante notar que o que caracteriza um silogismo dialético é a reputabilidade de suas premissas: elas são frases que possuem uma grande notoriedade na sociedade, seja porque a maioria das pessoas leigas acredita nela (por exemplo, “deve-se fazer o bem aos amigos”) ou porque algum sábio falou (p.ex.: o “tudo flui” de Heráclito). Por outro lado, o silogismo demonstrativo se caracteriza pela primordialidade e verdade de suas premissas: elas são frases que correspondem à realidade e nós não temos porque acreditar nelas senão por elas mesmas, pois por si só nos dão certeza.

Ensimesmado disse...

Já nos Analíticos Anteriores I 1 (24 a 16 – b 3), Aristóteles caracteriza premissa dialética e demonstrativa mais ou menos assim:

“Premissa é uma frase [logos] afirmativa ou negativa de algo acerca de algo (...) A premissa demonstrativa difere da dialética porque a demonstrativa é a assunção de um dos lados de uma contradição (pois, quem demonstra não pergunta, mas assume). Já a dialética é uma pergunta de uma contradição. Para que surja um silogismo, não difere em nada se a premissa é dialética ou demonstrativa, pois quem demonstra e quem pergunta fazem silogismos assumindo que algo se atribui ou não se atribiu a algo. Portanto, uma afirmação ou negação de algo acerca de algo, ao modo descrito acima, será uma premissa silogística sem qualificação. Mas será demonstrativa, se for verdadeira e assumida devido a teses [hypotesis] primordiais. E será dialética ou por ser uma pergunta de uma contradição (se você está perguntando) ou a assunção de algo aparente e reputado (se você está fazendo o silogismo), como foi dito nos Tópicos.”

No começo da passagem, fica mais claro qual é a diferença entre a premissa dialética e a demonstrativa: a dialética apresenta os dois lados de uma contradição (p.ex.: “o prazer é um bem?” e nós podemos responder ou que sim ou que não), até então em aberto. Já a demonstrativa parte de um dos lados da contradição (p.ex., "o eclipse é a obstrução da luz do sol pela lua" e nós não temos o direito de aceitar ou negar), mostrando os desdobramentos disso. Mas, mais ao final, o filósofo volta a diferenciar uma da outra por meio da primordialidade-verdade, por um lado, e da reputabilidade, por outro.

Ora, sabemos que um silogismo não pode ser dialético e demonstrativo ao mesmo tempo, pois é impossível, num mesmo tempo, acreditar em algo por autoridade alheia e pela própria veracidade dos fatos: ou você faz o silogismo por estar se baseando nas frases da maioria ou dos sábios, ou você faz o silogismo por ser verdadeiro com os fatos. Além do mais, uma premissa dialética nunca poderia chegar o grau de certeza que uma demonstração tem; nem uma premissa demonstrativa poderia perder o grau de certeza que ela tem e se tornar apenas reputada.

Mas não seria possível fazer um mesmo silogismo, num momento, se baseando nas endoxa, num outro momento, se baseando na própria veracidade dos fatos? Supondo, é claro, que a maioria ou os sábios falaram algo que corresponda à realidade. Se um famoso sábio fala uma frase que ocorre de ser verdadeira e primeira, pode uma pessoa fazer dela uma premissa dialética por se basear no sábio e outra pessoa, por se basear na própria verdade, fazer dela uma premissa demonstrativa?

Pode uma mesma premissa fazer parte, ora de um silogismo dialético, ora de um silogismo demonstrativo?