Eu opino que o Problema 1 do Tópico I é, na verdade, um pseudo-problema. Portanto, argumentarei a seguinte tese: é impossível que uma mesma premissa faça parte, ora de um silogismo dialético, ora de um silogismo demonstrativo. Em primeiro lugar, a própria formulação desta tese implica uma contradição e um erro categorial, pois asume que podemos ter uma proposição, in abstracto, que pode ser ora dialética, ora demonstrativa. Em segundo lugar, a natureza epistêmica do conceito ´demonstrativo´ e do conceito ´dialético´, segundo Aristóteles, nós leva a concluir que é impossível que eles podam converger, strictu sensu e sob nenhuma condição, no que respeita a uma premissa e, conseqüentemente, aos silogismos (An. Post. I.2; 74b15-18; An. Ant. I. 27-8).
Acho importante iniciar reiterando que a diferença entre os tipos de silogismos radica exclusivamente na natureza de suas premissas, pois tanto quem demonstra como quem pergunta deduzem, pois fazem silogismos num sentido não qualificado ou geral (Cf. Top. 100ª 25 ss; An. Pri. I, 24ª 10 ss; An. Post. I.2). Por tanto, o definitório no caso dos silogismos fica na caracterização das premissas, como acontece no seguinte parágrafo dos Analíticos Anteriores:
[...] a deductive premise without qualification will be either the affirmation or the denial of one thing about another [...] It will be demonstrative if it is true and has been obtained by means of the initial assumptions; a dialectical premise, on the other hand, is the posing of a contradiction as a question (when one is getting answers) and the taking of something apparent and accepted (when one is deducing), as was explained in the Topics. (An. Pri. I. Meus grifos)
Conseqüentemente, a diferença entre os tipos de silogismos radica exclusivamente na natureza de suas premissas. Se você aceita que a diferença entre os tipos de silogismos radica exclusivamente na natureza de suas premissas, então necessariamente você terá que aceitar os seguintes corolários:
(1) Se um silogismo tem premissas dialéticas, então o silogismo é dialético e vice-versa.
(2) Se um silogismo tem premissas demonstrativas, então o silogismo é demonstrativo e vice-versa.
Assim, por definição, se eu digo ˝eis um silogismo demonstrativo˝ posso dizer ˝logo, eis premissas demonstrativas˝.
Agora, posso fazer alguma combinação possível entre premissas demonstrativas e silogismos dialéticos que não me leve a uma flagrante contradição?
Vou a aceitar, por mor do argumento, a tese
(T) Uma mesma premissa pode fazer parte, ora de um silogismo dialético, ora de um silogismo demonstrativo.
(T) Uma mesma premissa pode fazer parte, ora de um silogismo dialético, ora de um silogismo demonstrativo.
e vou a examinar as consequências que se seguem dela:
1. Hoje eu fiz um silogismo usando as premissas demonstrativas A e B, e portanto eu fiz um silogismo demonstrativo. (Corolário 2)
2. Amanha posso fazer um silogismo com as (mesmas) premissas A e B e fazer um silogismo dialético. (T)
3. (ou) Amanha posso fazer um silogismo dialético que usa as (mesmas) premissas A e B. (T)
4. (2) e (3) são contraditórias com os Corolários 1 e 2.
5. (T) leva a contradições. (Reductio ad adsurdum)
Conclusão: É necessário rejeitar (T).
O anterior argumento permite fazer explícito um dos erros envolvidos na propria formulação de (T). Dizer que uma mesma proposição poderia ser usada ora como premissa dialética, ora como premissa demonstrativa constitui um erro categorial. É uma confusão sic et simpliciter. Todas as asserções ou proposições simples tem a mesma estrutura sintática de base: S é P (ou S não P). Mas, falar de proposições é simplesmente falar de uma abstração (type) que tenta reunir todos os tipos de asserções simples. Do mesmo jeito que não usamos ˝o triangulo˝ numa construção geométrica, pois simplesmente construímos triângulos escalenos, isósceles ou eqüiláteros, nós não podemos dispor ˝da proposição˝ in abstracto para nosso uso: sempre usamos tokens i.e. ou proposições dialéticas ou verdadeiras ou demonstrativas, etc. Portanto, a formulação de (T) é fruto de uma confução que, no memento de tentar argumentar em pro dela, torna-se uma petição de principio e uma a dicto simpliciter, duas falácias muito comuns.
Finalmente, ˝dialética˝ e ˝demonstrativa˝, no caso das premissas, é uma caracterização epistemológica. O estatuto epistemológico de uma premissa demonstrativa (uma premissa demonstrativa é (principalmente) verdadeira e primeira. Para rever as otras quatro caraterísticas Cf. An. Post. I.2; 74b15-18; An. Ant. I. 27-8) não é o mesmo estatuto epistemológico de uma premissa dialética (endoxa) (Cf. Top. I An. Pri. I); se negamos o anterior parece que teremos que contradizer ao próprio Aristóteles de modo sistemático. Conseqüentemente, a ônus da prova fica do lado de quem afirma que uma mesma proposição poderia ser usada ora como premissa dialética, ora como premissa demonstrativa. Neste ponto, é útil apresentar um último argumento: Aristóteles fala que (A) é possível fazer silogismos desde premissas verdadeiras sem demonstrar, mas (B) é impossível fazer silogismos desde premissas necessárias sem demonstrar, pois é isto último o que corresponde à demonstração (An. Post. 74b15-18). O caso (A) mostra que mesmo assim a premissa seja verdadeira isto não é suficiente para que seja demonstrativa. Logo, o mesmo acontece, a fortiori, no caso das premissas dialéticas.
Finalmente, ˝dialética˝ e ˝demonstrativa˝, no caso das premissas, é uma caracterização epistemológica. O estatuto epistemológico de uma premissa demonstrativa (uma premissa demonstrativa é (principalmente) verdadeira e primeira. Para rever as otras quatro caraterísticas Cf. An. Post. I.2; 74b15-18; An. Ant. I. 27-8) não é o mesmo estatuto epistemológico de uma premissa dialética (endoxa) (Cf. Top. I An. Pri. I); se negamos o anterior parece que teremos que contradizer ao próprio Aristóteles de modo sistemático. Conseqüentemente, a ônus da prova fica do lado de quem afirma que uma mesma proposição poderia ser usada ora como premissa dialética, ora como premissa demonstrativa. Neste ponto, é útil apresentar um último argumento: Aristóteles fala que (A) é possível fazer silogismos desde premissas verdadeiras sem demonstrar, mas (B) é impossível fazer silogismos desde premissas necessárias sem demonstrar, pois é isto último o que corresponde à demonstração (An. Post. 74b15-18). O caso (A) mostra que mesmo assim a premissa seja verdadeira isto não é suficiente para que seja demonstrativa. Logo, o mesmo acontece, a fortiori, no caso das premissas dialéticas.
Portanto, concluo que impossível que uma mesma premissa faça parte, ora de um silogismo dialético, ora de um silogismo demonstrativo.
16 comentários:
Por enquanto, queria lançar dúvidas sobre um ponto da argumentação acima. Diz-se:
"Mas, falar de proposições é simplesmente falar de uma abstração (type) que tenta reunir todos os tipos de asserções simples. Do mesmo jeito que não usamos ˝o triangulo˝ numa construção geométrica, pois simplesmente construímos triângulos escalenos, isósceles ou eqüiláteros, nós não podemos dispor ˝da proposição˝ in abstracto para nosso uso: sempre usamos tokens i.e. ou proposições dialéticas ou verdadeiras ou demonstrativas, etc."
Ora, eu até compreendo que alguns termos, embora seja "reais", não se encontram "concretamente" na realidade. Triângulo, em geral, é um bom exemplo. Penso também em Animal; de fato, nós não vemos um animal, sem qualificações, andando pela natureza: nós vemos homens, zebras, peixes etc. Assim, O conceito de Animal é uma abstração, embora seja real e se concretize em espécies.
Porém, não vejo por que não pode haver proposições simplesmente, sem qualificações. Qualquer um pode falar uma frase asseverativa, sem qualquer intenção de que ela faça parte ou de um silogismo dialético, ou científico, ou sofístico ou pseudo-científico. Aliás, muitas das frases asseverativas não são feitas com a intenção de argumentar.
Uma frase "S é P" não precisa, necessariamente, fazer parte de um sistema argumentativo. Ou precisa?
É muito importante não esquecer o tópico do debate, pois desse modo nossas colocações terão alguma relevância. Assim, se estamos discutindo sobre premissas dialéticas e premissas demonstrativas, então:
(1) Qual é o estatuto dos universais e.g. Homem, animal? Sem duvida, esta é uma pergunta metafísica de grande interesse, mas não é relevante para nosso tópico de discussão.
(2) As proposições que interessam a esta discussão são especificamente as proposições dialéticas e as proposições demonstrativas, as quais são tipos de apophansis (Cf.De Int. 16b33). Portanto, se qualquer um pode falar uma frase asseverativa, sem qualquer intenção de que ela faça parte ou de um silogismo dialético, ou científico esse é um assunto irrelevante para nosso tópico de discussão.
(3) "S é P" não é uma "frase" e ´Proposição' não é uma proposição. "S é P" não é uma proposição. De novo: Todas as asserções ou proposições simples têm a mesma estrutura sintática de base: S é P (ou S não P). Mas, falar de proposições é simplesmente falar de uma abstração (type) que tenta reunir todos os tipos de asserções simples. Do mesmo jeito que não usamos ˝o triangulo˝ numa construção geométrica, pois simplesmente construímos triângulos escalenos, isósceles ou eqüiláteros, nós não podemos dispor ˝da proposição˝ in abstracto para nosso uso: sempre usamos tokens i.e. ou proposições dialéticas ou verdadeiras ou demonstrativas, etc.
Por tanto, nunca e sob nenhuma circunstância alguém pode usar ´proposição´ como premissa de um silogismo ou num discurso qualquer do mesmo jeito que um geômetra não pode usar ´triángulo´ numa demonstração geométrica. O erro categorial é, quase, evidente.
Obrigado.
Réplicas:
1) O exemplo com "animal" não lida com uma questão metafísica. É apenas um exemplo análogo a “triângulo”.
2) Não é irrelevante. Isso mostra que a relação “proposição sem qualificação-premissas dialéticas/demonstrativas” é diferente da relação “triângulo sem qualificação-escaleno/equilátero/isósceles”. Isso mostra que pode haver proposições sem que nós classifiquemos como dialéticas, demonstrativas, paralógicas ou erísticas. Eu argumento melhor abaixo.
3) Não entendi: ""S é P" não é uma "frase" e ´Proposição' não é uma proposição. "S é P" não é uma proposição."
Premissa (ou proposição, a depender da tradução) é definida em Analíticos Anteriores I 1 como "frase [logos] afirmativa ou negativa de algo acerca de algo". Em seguida, Aristóteles diz: "esta é ou universal, ou particular ou indeterminada. Entendo por universal o atribuir a todo ou a nada; entendo por particular o atribuir a alguns, ou não a alguns, ou não a todos e entendo por indeterminada o atribuir (ou não atribuir) não universalmente nem particularmente, por exemplo, "ciência é de contrários" ou "o prazer não é bom"."
Ora, a única condição para que algo seja uma premissa(proposição) é que seja uma afirmação ou negação. Essa, inclusive, parece ser a definição de premissa(proposição). Isso significa que toda afirmação e negação é uma premissa. Portanto, se alguém fala “as pessoas não me entendem” isso é uma premissa(proposição), porque é uma negação, ou “tudo deve ser buscado na sua medida” isso é uma premissa(proposição), porque é uma afirmação, mesmo que essa pessoa não esteja argumentando. Os próprios exemplos de Aristóteles mostram o que basta para algo ser uma premissa: basta afirmar “ciência é do contrário” ou negar “o prazer não é bom”.
Eu entendo a ideia de que, se uma premissa estiver num argumento, estando num argumento (num silogismo), então terá de ser classificada ou como dialética ou como demonstrativa ou (não falamos disso ainda, mas se encontram no capítulo 1 dos Tópicos também) paralógica ou erística. Se é isso que o colega está chamando atenção, eu concordo. Mas, a julgar apenas pela “definição” (ou seria, "caracterização"?) de protasis, de premissa/proposição, então basta que se afirme ou se negue algo. E nós podemos afirmar ou negar algo sem pôr num silogismo.
De fato, isso me faz lembrar do Da Interpretação, mas não vou visitar essa obra agora para não causar confusão.
Se se concede isso, então não existe exatamente uma relação type-token entre premissa sem qualificação e premissas dialéticas ou demonstrativas. Não sei como denominar, mas a relação seria algo como: premissa sem qualificação é o termo geral; alguns dessas premissas seria dialéticas; outras, demonstrativas; outras, erísticas; outras, paralógicas e, por fim, outras não seriam nenhuma das anteriores.
Porém, acho que entendi o ponto do colega: está apenas chamando atenção para o fato de que toda frase, se fizer parte de um silogismo, deverá ser classificada ou como dialética, demonstrativa, erística ou como paralógica. Concordo com isso.
Uma pergunta para que prosseguir os questionamentos:
a característica de ser endoxa é como que um acidente de uma frase?
De fato, para uma frase ser endoxa basta que ou todos, ou a maioria ou os sábios a afirmem. Ora, pode muito bem ocorrer que algo seja endoxa num momento e deixe de ser endoxa em outro. O caso mais claro é a relação entre a Terra e o Sol. Antigamente, a opinião reputada era "o Sol gira em torno da Terra"; hoje, porém, a opinião reputada é que "a Terra gira em torno do Sol". Portanto, a primeira frase deixou de ser endoxa.
A pergunta é, então, muito simples: uma frase pode ser endoxa num momento e não o ser em outro?
Observei uma coisa agora e queria entender melhor. Diz-se:
"Portanto, nunca e sob nenhuma circunstância alguém pode usar ´proposição´ como premissa de um silogismo ou num discurso qualquer do mesmo jeito que um geômetra não pode usar ´triángulo´ numa demonstração geométrica."
Ora, um matemático pode usar o triângulo, simplesmente, numa demonstração. É isso que Aristóteles enfatiza em Analíticos Posteriores I 4 (73 b 32 - 74 a 3. Tradução de Jonathan Barnes):
"Something holds universally whenever it is proved of a chance case and primitively; e.g. having two right angles neither holds universally of figure (yet one may prove of a figure that it has two right angles—but not of a chance figure, nor does one use a chance figure in proving it; for the quadrangle is a figure but it does not have angles equal to two right angles)—and a chance isosceles does have angles equal to two right angles, but not primitively—the triangle is prior. If, then, a chance case is proved primitively to have two right angles or whatever else, it belongs universally to this primitively, and of this the demonstration holds universally in itself; but of the others it holds in some fashion not in itself, nor does it hold of the isosceles universally, but with a wider extension."
A característica de "ter a soma dos ângulos internos igual a 180o graus" é uma pertence ao triângulo enquanto tal, e não diretamente ao isósceles, ao escaleno, ao equilátero. Assim, o geômetra pode dispor do triângulo em geral e falar somente sobre ele.
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Mas a julgar pelo contexto, pela discussão, não é isso que se está discutindo...
Por questão de honestidade intelectual, tem que se conceder o último ponto da argumentação acima, aquele que invoca Analíticos Posteriores I 6. De fato, não é por achar que as argumentações são ruins que o debate continua, mas por achar que algo proveitoso pode-se depreender dessas discussões.
De fato, Aristóteles diz que não é possível fazer silogismos de proposições necessárias sem demonstrar. Também interessante é o que ele fala logo a seguir:
"Daí é claro que são ingênuos (ou tolos) os que pensam tomar bem os princípios se a premissa for verdadeira e reputada (p.ex., os sofistas ao dizer que "o conhecer cientificamente é ter ciência"). Pois, o reputado não é para nós o princípio, mas o primeiro do gênero acerca do qual se demonstra; de fato, nem todo verdadeiro é apropriado [como princípio]" (A.Po. I 6, 74 b 21-6)
Isso mostra, mais uma vez, que não é possível fazer demonstrações ao fazer uma silogismo dialético, por mais que se esforce por escolher uma premissa que seja verdadeira. Um silogismo não pode ser, ao mesmo tempo, dialético e demonstrativo.
Então, se nós usarmos como uma premissa dialética proposição que ocorre de ser necessária, nós estaremos fazendo uma demonstração, o que é impossível. A argumentação é realmente boa.
De fato, enquanto não se encontra uma passagem para embasar a posição contrária (a defendida em "Resposta positiva ao tópico I, problema 1..."), é preciso aceitar que esse argumento termina a questão: não é possível haver dois silogismos, um dialético e outro demonstrativo, com as mesmas premissas.
O que se questiona (sem encontrar um texto de Aristóteles que comprove essa suspeita, deve-se admitir) é se uma pessoa pode lidar com premissas que ocorrem de ser necessárias sem que ela saiba disso. Ou seja, um dialético não poderia fazer silogismos com frases necessárias sem tomá-las como necessárias, ou mesmo sem saber que são necessárias?
O interessante do capítulo em questão (A.Po. I 6) é que deve haver uma harmonia entre os fatos e o pensamento do cientista: os fatos têm de ser necessários e o cientista tem de saber que eles são necessários. Tanto que uma pessoa pode pensar que algo é necessário sem ser (75 a 15), nesse caso, ela não terá ciência. A dúvida é: não pode ocorrer o contrário: alguém lidar com algo necessário pensando que não é necessário?
Ou pode-se perguntar ainda: é relevante o que o argumentador tem em mente para determinar se o silogismo é dialético ou demonstrativo?
Mas acho que tais questões são motivo para outro tópico ou problema.
Sei que falta anuir à refutação que leva ao absurdo (Cf. postagem acima); chamo esse argumento de "da identidade". É um bom argumento (admito logo) mas queria pensar um pouco mais sobre ele.
(1) Nosso amigo escreveu: “O conceito de Animal é uma abstração, embora seja real e se concretize em espécies.” Seu uso do termo “real”, seja ou não sua intenção, situa você numa discussão metafísica. Espero que agora você entenda porque assinalei a irrelevância do ponto. Podemos fazer a discussão desses temas aparte, mas por enquanto é melhor esgotar o presente tópico. Finalmente, gostaria de agregar, que os termos “type” e “token” são neutros (especialmente num sentido metafísico) e constituem ferramentas para nós poder falar de abstrações e instancias sem compromissos filosóficos.
(2) Nosso amigo escreveu: “pode haver proposições sem que nós classifiquemos como dialéticas, demonstrativas, paralógicas ou erísticas”. Isso é o mesmo que dizer pode haver animais sem que nós classifiquemos como gatos, homens, etc. Você mesmo escreveu: “nós não vemos um animal, sem qualificações, andando pela natureza”. Você é sábio quando escreve isso. Do mesmo modo não pode haver proposições sem qualificação (só para ser muito claro: proposições apophanticas, não quero que você me fale de outros casos irrelevantes). Agora, Quais são essas proposições (apophanticas) que não são dialéticas, demonstrativas, etc? Solicito-lhe que me mostre uma. Se você me mostra uma, eu te mostro um animal sem qualificações.
(3) Bom, esse não é exatamente meu ponto. Em primeiro lugar, o que eu falei é que a estrutura sintática de uma proposição qualquer (i.e. S é P, S não é P), não pode ser confundida, por exemplo, com uma proposição demonstrativa. A ossamenta sintática não pode ser confundida com uma proposição que logo, jogando o papel de premissa num silogismo, é qualificada como “dialética” ou “demonstrativa”.
Finalmente, eis uns dos problemas que encontro em sua formulação: você inverte a ordem explicativa: o tipo de premissa faz o tipo de silogismo, não o silogismo a premissa.
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Ofereço-te minha leitura: não é que o geômetra use “o triangulo”: se o geômetra fala “isósceles”, então se segue “eis triangulo”. No entanto, se você fala “triangulo”, o geômetra não pode dizer “ eis isósceles”. Portanto, triângulo é primeiro que triângulo isósceles. Portante, não é por acaso (chance) que você chega a demonstração de uma figura que de fato é um “triângulo”.
É claro. Esse é o estatuto epistemológico de uma endoxa. Ela é um bom inicio para o embate dialético. De fato, no exercício dialético você encarga-se de refutar as endoxas falsas. Essa é parte da utilidade da dialética. Finalmente, acho que a passagem que você mesmo cita de Alexandre oferece alguma luz nessa caracterização. Na entrada Ciência e dialética: Tópico I, Problema 2 seguiremos falando do assunto.
Tome seu tempo. No entanto, saiba que preciso sua opiniao.
Obrigado pela honestidade. Saiba que não esperava menos de você. Confesso-lhe que me surpreende olhar como muitos outros colegas, de diversas culturas, caem nesse erro. Se nossa vida intelectual cai na hipocrisia e vive pelo orgulho: O que podemos esperar?
Há duas pessoas que concordam que pelo menos uma das diferenças entre premissas dialéticas e demonstrativas consiste no conteúdo mesmo das proposições:
Amônio (CAG IV, 4. Comentário aos Analíticos Anteriores, 19, 13-26)
Aristóteles admite que a premissa dialética e a demonstrativa diferem de dois modos, a partir da matéria e do emprego. A partir da matéria, porque a premissa demonstrativa é acerca de coisas necessárias e que sempre são do mesmo modo; já a dialética é acerca de fenômenos, de opiniões reputadas. A partir do emprego, porque a premissa demonstrativa é "a assunção de uma das partes de uma contradição"... a premissa dialética é para quem pergunta "uma pergunta e, para quem deduz, uma assunção" de uma das partes da contradição.
Filopono (CAG XIII, 2. Com. aos An. Ant., 21, 25 - 22, 3):
Aristóteles admite duas diferenças [entre premissas dialéticas e demonstrativas], uma de nosso emprego e outra da natureza das coisas. Da natureza das coisas porque o dialético não toma absolutamente o verdadeiro, mas o que parece ao interlocutor, seja isso verdadeiro ou falso, já o demonstrador toma apenas o verdadeiro e que não parecer a ninguém. Do emprego porque o dialético pergunta a contradição completa e o que parece ao interlocutor... já o demonstrador, sempre de olho na verdade, não pergunta, mas toma o que lhe parece de fato verdadeiro e não toma a completa contradição, mas apenas uma parte dela, a verdadeira.
Ao contrário de Alexandre, que põe apenas uma diferença de epikrisis (mas preciso observar melhor em Alexandre, admito), os comentadores neoplatônicos marcam duas diferenças entre as premissas dialéticas e demonstrativas: uma de emprego (isto é, o modo como colocamos a premissa) e outra do próprio objeto da proposição. Nesse segundo ponto, seria impossível que uma premissa fosse ora dialética e ora demonstrativa, porque, mesmo que mudássemos o modo como colocamos a frase, ainda assim os objetos seriam diferentes.
Na verdade, Alexandre de Afrodísia tem uma interpretação semelhante em seus Comentários aos Analíticos Anteriores, embora ele não detalhe tão bem como os neoplatônicos o que ele entende por "matéria" do silogismo.
In the Posterior Analytics 34 he describes at greater length how demonstrative propositions differ from other propositions: they differ both with regard to their matter (for they are true and prior and known and necessary), and also in the way in
which they are used and assumed (for someone who is demonstrating does not make requests). (CAG II 1. 12, 21-25. Tradução de J. Barnes, S. Bobzien et al.)
1) ok, o uso de palavras "real", "natureza" etc. foi infeliz. Entendemos que o problema não é metafísico, apenas lógico.
2) e 3) Desculpe, não entendi quem inverte o quê. A meu ver, é a premissa que determina que tipo de silogismo será. Se as premissas de um argumento forem tomadas como primeira e necessária (e se de fato elas satisfizerem essas condições), então o silogismo será demonstrativo. Se elas forem tomadas como endoxais (e se de fato cumprirem esses requisitos), então, dialético. Se o colega diz que inverti isso, não me expressei direito.
Em poucas palavras, chamei atenção ao fato que basta a frase dizer algo de algo, ou seja, tenha a estrutura 'S é P', para que ela seja classificada como
protasis (proposição ou premissa, a depender da tradução). Ou seja, se a proposição é verdadeira e necessária, endoxal ou não, isso já é ir além do que é suficiente para proposição.
Assim, se alguém diz uma frase qualquer, p.ex., 'João vai ao mercado', ela já cumpre todas as condições para ser uma proposição. Essa frase não precisa ser endoxal, nem verdadeira e necessária, para ser uma protasis.
continuando a resposta 2) e 3),
A questão é se é possível uma proposição não ser nem dialética, nem demonstrativa nem paralogica ou erística. Ora, silogismo dialética, demonstrativo, paralógico e erístico, como já diz, são discursos e, portanto, envolvem mais de uma proposição. Portanto, basta que alguém diga uma única frase, sem a pôr num discurso, para que fale uma proposição que não é nem dialética, nem demonstrativa, nem erística nem paralógica.
O colega diria que a frase "Sócrates é branco", um exemplo de frase apofântica em De Int. 7, é uma premissa dialética ou demonstrativa?
A seguinte passagem também é a favor de uma resposta negativa ao problema 1 do tópico I:
A dialética é questionadora e, se for provar algo, não questiona, se não sobre tudo, ao menos sobre os princípios primeiros e próprios. Pois se não for concedido isto, não há mais [premissas] a partir das quais se dialogará contra a objeção(Refutações Sofísicas 11, 172 a 17-21)
Antes de mostrar mais claramente porque a passagem é a favor da resposta negativa, é preciso deixar claro o que quer dizer "a dialética não questiona ... sobre tudo", pois de fato parece que ela questiona. Isso deve se ligar ao contexto da passagem, em que se diz que um argumento universal não é do mesmo modo que um argumento universal (172 a 13). E, de fato, se um dialético puser uma questão muito universal para avaliação de seu interlocutor, este pode sempre optar pela resposta negativa, o que deixará o dialético sem chão para argumentar. Digamos que o dialético pergunte algo como "tudo que é é, ou não?", se o interlocutor disser "não", então não há mais como continuar a discussão, pois acabou-se de se negar o princípio da identidade e não há argumentos sem esse princípio. Portanto, a dialética, quando quer provar algo para alguém, não deve começar com perguntas muitíssimo gerais.
(Em todo caso, não se deve interpretar "a dialética não questiona ... sobre tudo" como se a dialética não tivesse acesso a todos os assuntos, ou aos princípios comuns. De fato, Aristóteles volta a afirmar isso no mesmo capítulo: cf. 171 b 6; 172 a 36.)
Assim, da mesma forma, um argumento dialético não deve ter em suas premissas proposições que façam parte de um corpo científico, pois, como as premissas dialéticas são feitas em forma de questionamento ao modo "sim ou não?", se for escolhido o "não" então o argumento já não poderá mais chegar à prova desejada, ou pelo menos, será mais difícil fazê-lo. Se o cientista, querendo provar ao seu interlocutor, que só o homem é capaz de rir, começar perguntando "é a definição de homem animal racional, ou não?", diante da resposta negativa, ficará embaraçado para chegar à conclusão desejada, afinal deverá continuar o argumento como se a definição de homem não fosse animal racional.
Portanto, inclusive materialmente, "conteudisticamente", premissas dialéticas não podem conter proposições que, em outros momentos, façam parte de silogismos demonstrativos.
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